A nossa filha foi intolerante severa até os quatro anos. Sem leite, sem glúten, sem nada.
A cada festa de aniversário, minha esposa ligava antes para saber o que ia ser servido. Depois refazia tudo em versão permitida — o bolo, o salgado, o docinho — só para que ela não fosse a única na mesa sem poder comer.
Ela era pequena, mas era esperta. Ela percebia.
O que a gente não queria
A gente não queria que ela crescesse com a sensação de não pertencer. De ser a “coitadinha que não pode nada”. Comer junto não é sobre comida. É sobre estar na mesma mesa comendo a mesma coisa.
Os três sabores
Eu provava tudo que comprava antes de dar pra ela. E foi assim que constatei que, naquela época, sem glúten e sem leite tinha três sabores: papel, isopor e areia.
Aí eu fiquei bravo. E decidi fazer uma coisa tão boa quanto a tradicional — só que sem glúten e sem leite.
Onde isso chegou
Chegou aqui. Uma linha inteira à base de quinua, feita por uma família em Santana de Parnaíba, para quem sempre ouviu “esse você não pode”.
A primeira pessoa a provar cada receita nova continua sendo a mesma.














